A crise vai acabar. E voltar.

A crise vai acabar. E voltar.

O que acontece hoje é comum na história – a economia vive de ciclos, como as estações do ano. Mesmo assim, agradeça ao cassino financeiro que gera as crises. Sem ele viveríamos num mundo pior.

De uma hora para outra, a crise bateu. As bolsa de valores, que não parava de quebrar recordes de alta, despencou. Dinheiro virou coisa rara no mercado. Empréstimos minguaram. Com medo do pior, todo mundo passou a gastar menos. Aí piorou de vez: sem crédito nem clientes, empresas que até outro dia tinham seus maiores lucros na história não conseguiam mais fechar as contas. E quase ninguém deu conta: de cada 100 companhias, 72 fecharam as portas. As que não morreram acabaram gravemente feridas: até a maior empresa do mundo viu seu valor de mercado cair 80%.

O governo precisou agir para evitar o desastre completo. E apontou o grande culpado pela crise: a ganância dos homens que tinham transformado a economia em um cassino. “Vamos restringir as práticas perniciosas dos corretores e negociadores de ações”, escreveram os parlamentares. Um analista financeiro resumiu bem a coisa: “Qualquer um poderia ter previsto que a alta das ações a um preço tão superior ao quanto elas valem de fato teria uma consequência fatal”. Teve mesmo.

Tudo isso aconteceu em 1697. O governo era o britânico, que precisou intervir para colocar rédeas no mercado financeiro depois que uma bolha de crescimento econômico estourou e deu lugar à maior crise da história até então. E o analista era o escritor Daniel Defoe, que 18 anos depois publicaria Robinson Crusoé. As semelhanças entre esse mundo de 300 anos atrás e o de agora deixam claro: a nossa crise não tem nada de nova nem significa o começo do fim do capitalismo. É fato que a de hoje é maior. Principalmente porque não existem mais fronteiras econômicas como no século 17. Uma grande crise não fica concentrada em um país ou uma região, mas pega o planeta todo. Só que é fato: mesmo assim ela segue o roteiro de outras dezenas de bolhas econômicos que estouraram ao longo da história.

Para entender isso melhor, basta olhar com mais atenção ao que aconteceu lá atrás. O comércio de ações, que forma a espinha dorsal dos mercados financeiros, existe desde a Roma antiga. Cidadãos emprestavam dinheiro para o Estado e usavam os recibos como moeda. É que eles davam direito a uma participação nos lucros de obras estatais a ser construídas, como novos portos e minas, então podiam “valer mais do que dinheiro”, como dizia o Silvio Santos sobre suas barras de ouro.

Já o mercado moderno, com empresas controladas por milhares de acionistas, começou mesmo na Holanda, em 1602. Foi quando a Companhia das Índias Orientais, que comercializava especiarias, dividiu sua propriedade em partes iguais e minúsclas (as ações) para que pudesse financiar com mais facilidade suas empreitadas maritímas. Todo mundo dividia as despesas na hora de comprar as ações e tinha direito a uma parcela do lucro.

O que o sistema tinha de mais interessante, porém, era outra coisa: ninguém sabia qual seria o lucro de uma expedição. Se os barcos demorassem para voltar do Oriente, algum acionista podia achar que eles afundaram e tentar vender sua participação na companhia antes que ela própria afundasse. Aí o jeito era vender por um preço menor que o original, para não acabar com as calças na mão, e encontrar alguém disposto a correr o risco.

Agora, quando vinha a notícia de que os barcos estavam chegando carregados, a expectativa de lucro ia lá para cima. E o comprador podia vender as ações que arranjou baratinho por um preço muito maior. Ele levantava dinheiro sem fazer força. É exatamente o que acontece nas bolsas de hoje.

Depois que a Companhia das Índias se deu bem com esse negócio de ações, outras empresas seguiram o mesmo caminho. Mas a febre só começou para valer em Londres, por volta de 1690. E tudo graças a um certo capitão de navio, William Phillips. Ele voltou para a Inglaterra em 1687 com 32 toneladas de prata e baús de jóias retirados de um navio espanhol que naufragara. Isso rendeu 190 mil libras (R$ 105 milhões em valores de hoje) para ser divididas entre os financiadores, os acionistas, da expedição. Um retorno de 10 000%. “Tem bagulho bom aí!” um monte de gente deve ter pensado: de cara, surgiram dezenas de projetos de caça ao tesouro. Como levantar dinheiro? Lançando ações da empreitada e vendendo-as no pub, claro. A coisa inspirou até um boom de empresas de equipamentos de mergulho, que vieram na cola dos projetos. Companhias que ainda nem existiam viram suas ações subir 500% no mercado antes de abrir as portas – coisa que acontece até hoje, por sinal. Antes de a nossa crise bater, quando as bolsas batiam recorde atrás de recorde, o empresário Eike Batista levantou R$ 6,7 bilhões vendendo ações de sua petrolífera, a OGX, sem que ela tivesse saído do papel.

Fim da festa

A Inglaterra do século 17 e o planeta Terra do século 21 têm um grande ponto em comum: investidores e empresas obtinham cada vez mais lucros no mercado financeiro. Com tanto dinheiro girando, a facilidade para arranjar empréstimos aumentava. E, quanto mais as pessoas ganhavam, mais pegavam emprestado para aplicar. Todo mundo saía ganhando. Então o que poderia dar errado?

Bom, uma hora descobriram que não havia tantos tesouros assim no mar. A expectativa de que os tais projetos dessem lucro logo caiu a zero. E as ações deles também. Elas foram o equivalente aos títulos de hipoteca na crise de agora: a economia estava baseada na crença de que o preço delas subiria para sempre. Quando veio a queda, o resto também desmoronou. E o resultado lá atrás foi igual ao de hoje: o dinheiro para pagar novas dívidas sumiu, credores tomaram calote e a opulência que tinha crescido em torno da euforia foi ruindo. Até a Companhia das Índias, que não tinha nada a ver com a história, viu suas ações cair de 200 para 37 libras (a tal queda de 80% do primeiro parágrafo). Acabava a festa.

Mas, apesar do baque, a euforia do século 17 serviu para construir o mundo a que você está acostumado. Graças ao “cassino” das ações, a Companhia da Índias pôde se financiar – e, de quebra, inventar o comércio global. Depois da crise da década de 1690, vieram dezenas de outras. Só que logo a especulação ajudaria a bancar nada menos que a Revolução Industrial. A história deles mal tinha começado. E a nossa, a do mundo totalmente globalizado, nem saiu das fraldas. Mas, de crise em crise, ela continua sendo escrita.

Os 4 passos de todas as crises da história

1. Olha a onda
Novas oportunidades de investimento (internet, imóveis etc.) criam chances de lucros cada vez maiores no mercado financeiro.

2. Euforia
Quanto mais lucro se espera, mais as ações sobem. Investidores novatos entram no negócio.

3. Fase maníaca
Companhias novas lançam ações para aproveitar a euforia. Pessoas e empresas fazem fortunas da noite para o dia. O crédito fica facinho.

4. Estouro da bolha
As expectativas de lucro não viram realidade. Investidores fogem. Bancos tomam calote. O crédito some, a economia trava. E vem a crise.

(Fonte: Revista Superinteressante - Alexandre Versignassi)

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Imagem: reprodução